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Ana Pinto

Blog Literário

Ana Pinto

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Rio

No dia de quem escreve

Maio 22, 2023

Um desafio no Dia do Autor Português

Relógio amarelo.jpg

[Este não é um texto poético nem de ficção. É apenas uma pequena reflexão e um apelo dirigido aos autores já publicados, no dia de quem escreve.]

Perguntei-me, há alguns meses atrás, se um livro que ninguém lê é ainda um livro. Se repousa, encadernado e com páginas contadas, na estante de uma casa ou no escaparate de uma livraria, é claro que existe, ainda que ninguém o tenha folheado, ainda que ninguém o tenha comprado. Ocupa espaço, é visível e palpável. Matéria de facto. E se existe enquanto objecto é porque este livro foi lido, alguém escolheu publicá-lo. Com maior ou menor sucesso de vendas ou de leituras, por certo que houve um número de pessoas que o leu.

A génese de um livro – ou de um poema ou história – começa na ideia e termina quando alguém, que não o próprio autor obviamente, o lê. E nem é preciso, hoje em dia, que exista sob o formato de um objecto físico poisado numa qualquer superfície, a esfera ciber−espacial possibilita perfeitamente a sua meta-real existência.

Mas – sê-lo-á, na sua essência, se ninguém o ler?

Vejo todos os dias poemas, escritos de ficção, criações literárias de todos os géneros, a percorrerem os feeds por onde me movo, alguns assim-assim, outros – tantos – francamente bons. E questiono-me sempre quantos irão ver a luz publicada do dia. A maior parte mal chega sequer a ser lida, escoando por entre as frinchas resvaladiças e manhosas de um algoritmo incomplacente. Não me vou alongar mais sobre o tema do algoritmo, no qual já bati com a firmeza necessária a um bom panado anteriormente.

Nos antípodas dos ignorados, estão, pois, os publicados. Já existem, e a maior parte em todas as dimensões possíveis da realidade contemporânea, já alcançaram o seu lugar ao sol na montra das fnacs e nas prateleiras das casas. Kudos, parabéns, enhorabuena. O sonho realizou-se, e é provável que assim continue, esperemos sempre com sucesso. Têm pois, publicidade garantida e visibilidade, de maior ou menor duração, assegurada. E não só pelas comerciais mãos das suas editoras e pelas mãos devotas dos leitores, mas também pelas mãos amigas dos seus pares.

Já todos vimos autores a promover os livros de outros, e isso não é nem prerrogativa do mundo literário, nem novidade em mundo artístico algum: cantores promovem outros cantores, actores elogiam o trabalho de outros colegas, etc., etc. É gentil, abnegado, e simpático de o fazerem, principalmente quando já por cá andam há muitas mais voltas completas ao sol (como parece que é trendy dizer hoje em dia).

Mas o que seria, para além de igualmente gentil e abnegado, verdadeiramente inovador, era se estes autores – independentemente da área de actuação – oferecessem um poucochinho da sua própria visibilidade a quem pena pelos esconsos meandros da ciberesfera, e partilhassem uma dessas invisíveis criações nas suas histórias, ou fizessem um simples e higiénico like.

Nunca foi tão fácil como agora. E não precisam de despender nem muito esforço nem demasiado tempo – a não ser que, eventualmente, se percam nas leituras e visualizações, não posso garantir que não aconteça. A mim acontece-me com frequência.

É um desafio que vos faço, queridos autores consagrados: cinco minutos. Nem precisam de ser diários: cinco pequeninos minutos semanais ou ocasionais, a deixar o olhar e o dedo deslizarem livres e soltos por essas timelines adentro, e, em caso de encontrarem algo que lhes cative o interesse, colorir aquele coração maroto, e se gostarem mesmo, mesmo muito, ofertar uma partilha gostosa. E pronto. Já está, foi rápido e não doeu nada. Siga a vida, porque o tempo de um escritor publicado escasseia. Quase tanto como o de quem luta pela hipótese de o ser.

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