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Ana Pinto

Blog Literário

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Rio

Lúcia ao contrário (excerto 2)

Mauro

Janeiro 26, 2024

Foto de cottonbro studio no Pexels

Esperamos a vida toda por ouvir certas palavras saírem da boca de alguém, mas as que saem de facto são usualmente diferentes do que tínhamos antecipado: “Sim, claro, um dia, daqui a uns anos, gostaria de ficar com alguém como tu”, ou “Não tem nada a ver contigo, tem só a ver comigo, estou numa fase em que tenho de me concentrar mais em mim e no meu futuro”, ou ainda “Estou com ela há muito tempo, não posso acabar tudo assim sem mais nem menos!”, ou a minha favorita “Não, não falemos de amor, isso só complica tudo! Deixemos as coisas serem livres e simples, e assim seremos amigos para sempre!”.

Vamo-nos conformando com o facto de a realidade ficar sempre aquém das nossas expectativas – algumas possivelmente mais fantasiosas do que outras.

Até que um dia, finalmente surge alguém que diz as coisas certas. E então, quando já tínhamos desistido de o encontrar, quando já duvidávamos que existisse sequer, eis-nos, por fim, perante um adulto funcional. Que tem a sua vida profissional resolvida e perfeitamente estanque da vida sentimental; que nos abre as portas e nos convida a entrar primeiro; que vive sozinho, desenvencilhando-se sem os tupperware da mamã; que nos leva a jantar num lugar onde os guardanapos são de pano e os empregados seguram a nossa cadeira quando nos sentamos. E pensamos que, se não forem os nossos sonhos a tornarem-se realidade, então desliguem o despertador que não queremos acordar!

Até o sonho, lenta e incontornavelmente, se tornar numa espécie de pesadelo.

Assim era o Mauro – o sonho que nos embevece e embala, até o choque nos atingir no pesadelo que não prevíramos.

Havia violência naquele olhar, mais do que nos gestos, mais do que nas palavras. Em retrospectiva, hoje sei o que era: na época julgava que era paixão.

Mauro

Estava farta daquela supremacia do macho, onde só as suas necessidades contam, onde só as suas escolhas têm prioridade. Tudo o resto é paisagem de segundo plano, factualidades acessórias que se devem adequar à condição irrevogável de somenos importância.

Cheguei a pensar que todas temos culpa. Todas as que damos palco a este teatro de variedades de one-man show; todas as que acomodamos com inelutável automatismo as suas inadmissíveis falhas, como se fossem gestos naturais de acontecer.

Mas de facto não temos. Não temos culpa que estes seres levem a cabo o seu dia-a-dia completamente mergulhados em si mesmos e nas suas actividades, perfeitamente alienados dos diminutos factos da realidade à sua volta – como o lavatório da casa-de-banho que está sempre limpo, sem os vestígios pilosos da sua presença matutina, ou a chávena de café que misteriosamente desapareceu da mesa do pequeno-almoço e repousa no tabuleiro superior da máquina de lavar loiça, onde, pasme-se, pertence depois de cumprir a sua função de recipiente.

Tudo o que diga directamente respeito à sua existência física no mundo parece sofrer uma triagem automatizada nos seus cérebros: para um lado tudo o que lhes interessa e propicia prazer e que resulta em escolhas objectivas, e para o outro tudo o que lhes passa sob o alcance do seu radar, profundamente implantado na caixa negra do seu egocentrismo, cujo sensor se encontra estrategicamente posicionado na ponta do nariz. Abaixo disto, nada existe. Nem peúgas no chão, nem toalhas molhadas, nem rolo de papel vazio, nem imprecações rosnadas, nem paciência esgotada, nem sequer porque é que hoje-não-que-me-doi-a-cabeça.

Portanto, não temos culpa, de facto. É defeito que vem de fábrica. A melhor forma de o corrigir é atirar com um objecto suficientemente volumoso – talvez um dos sapatos deixados à entrada do quarto – ou apenas suficientemente incomodativo – um pano encharcado, por exemplo – e atingir em cheio o sensor externo de modo a recalibrar o sistema. Se não resultar, podemos sempre devolvê-lo à procedência, e adquirir um modelo mais recente, já sem o chip androcentrista.

Ou melhor ainda: apreciar a beleza suprema de termos uma casa inteira só para nós. A cheirar bem. Com o assento da sanita para baixo. Com a loiça toda nos sítios devidos, conforme o estado corrente da sua utilização. Ou mesmo com tudo virado do avesso, mas com a profunda satisfação de sabermos que vamos arrumar o que foi desarrumado apenas por nós. Com a paz e o sossego que só a solidão desejada pode proporcionar.

Ainda não entendo como, depois de aprender tudo isto na frustrante experiência com o Rodrigo, ainda fui capaz de repetir a asneira. E pior ainda, torná-la oficial, ao casar-me com o Mauro.

Mas o que é certo, é que ao fim de algum tempo de prolongada solidão, esta começou a deixar de me apetecer. O silêncio de uma casa vazia tornou-se subitamente perceptível e difícil de suportar.

A minha existência – que durante algum tempo parecia um imenso prado verde sob um resplandecente céu azul, tipo imagem de ambiente de trabalho do computador – converteu-se num longo e árido deserto que eu percorria a custo, diariamente, sem parecer avançar um metro que fosse. Não me ocorreu, naquela altura, que se perseverasse o suficiente, logo sentiria a brisa suave de um oásis não muito distante.

A solidão cansou-me, e o deserto pareceu-me demasiado longo para ser atravessado a sós.

Foi então que ele surgiu, no horizonte difuso.

O Mauro não surgiu, de facto: para ser rigorosamente exacta, ele sempre ali esteve. Ao alcance de um olhar distraído. À distância de um passo ou dois. Tropecei nele várias vezes antes de me dar efectiva conta da sua presença. Da sua existência. E quão melhor teria sido continuar a caminhar os meus passos distraídos para o sentido mais oposto e longínquo daquele horizonte fatídico.

 

Lúcia ao contrário - excerto 2 [Reel]

Nota: este excerto faz parte do meu novo romance ainda em produção. Todos os excertos deste romance aqui publicados não estão por ordem nem foram revistos. Se quem lê quiser deixar-me as suas impressões nos comentários, ficarei muito grata. 

 

 

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