Swipe [II]
Parte 1/1 de uma história que nunca aconteceu
Junho 21, 2024
[...] Até que tudo o que era possível perguntar sem comprometimento fora perguntado.
Até que se calaram.
Até Ela adivinhar a pergunta seguinte. Aquela que lhe queimava a ansiedade e lhe tirava o sono das escassas horas até à manhã. «E se ele quiser?»
Até Ele lhe fazer a pergunta seguinte. Aquela que lhe queimava as pontas dos dedos no teclado digital, e lhe tirava o sono no que lhe sobrava da noite para dormir.
– Queres?
Passou um minuto. Dois. Três. Três minutos num diálogo dito na privacidade encasulada de uma app configura uma pequena eternidade.
– Sim. – acabou Ela por responder.
Ela pousou o telefone assim que digitou aquelas três letrinhas (todas bonitinhas, como diz a canção), levantou‑se da cama, e começou a andar depressa no quarto, num vaivém enlouquecido, a tentar recuperar o fôlego.
Ele pousou o telefone assim que o balão verde lhe devolveu a esperança no ‘sim’ que tanto queria ler, levantou‑se da cama, e comemorou numa dança que deixaria o John Travolta orgulhoso.
Depois de recuperado o fôlego de Uma e perdido o de Outro, agarraram de novo nos telemóveis e regressaram à conversa, cada um temendo ter deixado o outro demasiado tempo à espera.
Ele começou a escrever, e apagou. Recomeçou e tornou a apagar.
Ela via aquelas reticências a piscar e o fôlego começou a esvair‑se dos seus pulmões outra vez.
Por fim, um coração vermelho pulou no ecrã – e era o terceiro naquela noite a fazê‑lo.
Logo depois, um balão azul impaciente ousou nova pergunta:
– Quando?
Abdicando por completo de respirar, Ela respondeu o mais depressa que o seu inábil indicador conseguia.
– Em breve.
Todos sabemos que, no mundo digital, há de tudo menos um bit, que seja, de paciência. Se um texto não tem imagem, não lemos; se é longo, preferimos um vídeo; se o vídeo não nos cativar em 0.3 segundos, passamos ao seguinte.
Esta pressa impaciente atravessou as fronteiras geracionais, tornando-nos a todos em consumidores insaciáveis e reféns crónicos da novidade. Novos e velhos, por dentro ou por fora, todos nos deixamos levar pelo frenético deslizar dos nossos dedos, num percurso incessante e vão. Não importa o que virá a seguir, desde que não tarde. Horas de consumo visual inveterado, num swipe impiedoso e sem tempo a perder. E tanto tempo perdido, ainda assim...
A conversa Deles mudou. Invariavelmente, a pergunta surgia, cada vez mais exigente de uma resposta concreta, na premência da novidade, do tempo que não se pode perder.
E Ele não tinha tempo algum a perder. Já outras vezes o tinham feito perder tempo, tanto tempo, tantas vezes. Agora sabia bem que não valia a pena esperar. Por isso gostava tanto da agitação da vida moderna, que o obrigava a mexer-se depressa, a correr. E como Ele adorava correr! O que há para acontecer, tem de acontecer depressa, o quanto antes. Quanto mais cedo, melhor.
Podia tentar ser mais paciente, e sondar o território um pouco mais. Mas para quê esperar? As desilusões doem mais, se forem lentas.
– Quando? Não digas em breve! Diz-me: quando?
– Não sei...
– Tu não queres!
– Claro que quero!
– Então, quando? Diz-me: quando nos vamos encontrar?
Era inevitável, Ela soubera‑o desde o início, apenas achou que teria mais tempo. Que teriam mais tempo. Tempo para fazerem tudo tão devagar quanto necessário. Tal como Ela gostava, tal como Ela sempre quis e nunca conseguiu. Por isso detestava tanto a agitação da vida moderna, que a obrigava a mexer-se depressa, a correr. E como Ela odiava correr! Ela que não corria nem para apanhar o único autocarro em dia de greve, via-se agora nos apuros de ter de correr.
Ainda pensou em dar-lhe uma desculpa que lhe ganhasse algum tempo. Mas depois de tantas verdades trocadas entre os dois, não era agora que Ela ia trocá‑las todas por uma mentira.
A pressa vertiginosa do momento seguinte empurrava‑a sem piedade.
Respirou fundo. A verdade saiu‑lhe da alma, e o indicador, sincero e trémulo, digitou‑a. A esperança da calma conduziu as suas palavras. As desilusões doem mais, se forem apressadas.
– Não estou pronta para ti. Ainda não. Sei que há um amor possível à nossa espera, mas terá de esperar um pouco mais. Podes esperar por mim?
No ecrã, o sinal de ‘visto’ sentenciou o silêncio.
Um, dois, três minutos. A eternidade, portanto.
Swipe.
E a história terminou sem nunca ter começado.
Nota: levei este conto à edição deste ano do concurso Novos Talentos da Fnac. Infelizmente, não teve sucesso junto do júri. Espero que possa ter melhor sorte com os leitores deste blog!
Apesar do que o subtítulo promete, este conto está dividido em duas partes - esta é a segunda. A primeira parte pode ser lida aqui.
