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Ana Pinto

Blog Literário

Ana Pinto

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Rio

Swipe [II]

Parte 1/1 de uma história que nunca aconteceu

Junho 21, 2024

Foto de mikoto.raw Photographer no Pexels

[...] Até que tudo o que era possível perguntar sem comprometimento fora perguntado.

Até que se calaram.

Até Ela adivinhar a pergunta seguinte. Aquela que lhe queimava a ansiedade e lhe tirava o sono das escassas horas até à manhã. «E se ele quiser?»

Até Ele lhe fazer a pergunta seguinte. Aquela que lhe queimava as pontas dos dedos no teclado digital, e lhe tirava o sono no que lhe sobrava da noite para dormir.

Queres?

Passou um minuto. Dois. Três. Três minutos num diálogo dito na privacidade encasulada de uma app configura uma pequena eternidade.

Sim. – acabou Ela por responder.

Ela pousou o telefone assim que digitou aquelas três letrinhas (todas bonitinhas, como diz a canção), levantou‑se da cama, e começou a andar depressa no quarto, num vaivém enlouquecido, a tentar recuperar o fôlego.

Ele pousou o telefone assim que o balão verde lhe devolveu a esperança no ‘sim’ que tanto queria ler, levantou‑se da cama, e comemorou numa dança que deixaria o John Travolta orgulhoso.

Depois de recuperado o fôlego de Uma e perdido o de Outro, agarraram de novo nos telemóveis e regressaram à conversa, cada um temendo ter deixado o outro demasiado tempo à espera.

Ele começou a escrever, e apagou. Recomeçou e tornou a apagar.

Ela via aquelas reticências a piscar e o fôlego começou a esvair‑se dos seus pulmões outra vez.

Por fim, um coração vermelho pulou no ecrã – e era o terceiro naquela noite a fazê‑lo.

Logo depois, um balão azul impaciente ousou nova pergunta:

Quando?

Abdicando por completo de respirar, Ela respondeu o mais depressa que o seu inábil indicador conseguia.

Em breve.

Todos sabemos que, no mundo digital, há de tudo menos um bit, que seja, de paciência. Se um texto não tem imagem, não lemos; se é longo, preferimos um vídeo; se o vídeo não nos cativar em 0.3 segundos, passamos ao seguinte.

Esta pressa impaciente atravessou as fronteiras geracionais, tornando-nos a todos em consumidores insaciáveis e reféns crónicos da novidade. Novos e velhos, por dentro ou por fora, todos nos deixamos levar pelo frenético deslizar dos nossos dedos, num percurso incessante e vão. Não importa o que virá a seguir, desde que não tarde. Horas de consumo visual inveterado, num swipe impiedoso e sem tempo a perder. E tanto tempo perdido, ainda assim...

A conversa Deles mudou. Invariavelmente, a pergunta surgia, cada vez mais exigente de uma resposta concreta, na premência da novidade, do tempo que não se pode perder.

E Ele não tinha tempo algum a perder. Já outras vezes o tinham feito perder tempo, tanto tempo, tantas vezes. Agora sabia bem que não valia a pena esperar. Por isso gostava tanto da agitação da vida moderna, que o obrigava a mexer-se depressa, a correr. E como Ele adorava correr! O que há para acontecer, tem de acontecer depressa, o quanto antes. Quanto mais cedo, melhor.

Podia tentar ser mais paciente, e sondar o território um pouco mais. Mas para quê esperar? As desilusões doem mais, se forem lentas.

Quando? Não digas em breve! Diz-me: quando?

Não sei...

Tu não queres!

– Claro que quero!

– Então, quando? Diz-me: quando nos vamos encontrar?

Era inevitável, Ela soubera‑o desde o início, apenas achou que teria mais tempo. Que teriam mais tempo. Tempo para fazerem tudo tão devagar quanto necessário. Tal como Ela gostava, tal como Ela sempre quis e nunca conseguiu. Por isso detestava tanto a agitação da vida moderna, que a obrigava a mexer-se depressa, a correr. E como Ela odiava correr! Ela que não corria nem para apanhar o único autocarro em dia de greve, via-se agora nos apuros de ter de correr.

Ainda pensou em dar-lhe uma desculpa que lhe ganhasse algum tempo. Mas depois de tantas verdades trocadas entre os dois, não era agora que Ela ia trocá‑las todas por uma mentira.

A pressa vertiginosa do momento seguinte empurrava‑a sem piedade.

Respirou fundo. A verdade saiu‑lhe da alma, e o indicador, sincero e trémulo, digitou‑a. A esperança da calma conduziu as suas palavras. As desilusões doem mais, se forem apressadas.

Não estou pronta para ti. Ainda não. Sei que há um amor possível à nossa espera, mas terá de esperar um pouco mais. Podes esperar por mim?

No ecrã, o sinal de ‘visto’ sentenciou o silêncio.

Um, dois, três minutos. A eternidade, portanto.

Swipe.

E a história terminou sem nunca ter começado.

 

 

Nota: levei este conto à edição deste ano do concurso Novos Talentos da Fnac. Infelizmente, não teve sucesso junto do júri. Espero que possa ter melhor sorte com os leitores deste blog! 
Apesar do que o subtítulo promete, este conto está dividido em duas partes - esta é a segunda. A primeira parte pode ser lida aqui.

 

 

 

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