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Ana Pinto

Blog Literário

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Rio

Lúcia ao contrário (excerto 3)

Do super-homem ao super-merdas [continuação]

Fevereiro 02, 2024

Lúcia Excerto 3.jpg

No fim das aulas, conversámos um pouco durante a porção do caminho de regresso a casa que tínhamos em comum. Ele nascera em Portugal, mas vivia em Toronto desde os seis meses de idade. O pai era canadiano e a mãe portuguesa. No colégio falava francês, com os amigos inglês, e em casa a mãe fazia questão que ele falasse português – ainda que o pai não entendesse quase nada, e gostasse ainda menos. Os pais separaram-se e ele regressara com a mãe a Portugal. Deixara para trás os amigos da escola e do bairro, o hóquei e tudo o que sempre conhecera e tivera por garantido na sua vida. Tinha uma evidente película de tristeza que se sobrepunha ao plácido azul dos seus olhos.

– Vais ver que te vais adaptar num instante. Eu dou-te uma ajuda, se precisares... – pousei a minha mão no braço dele sem metade da convicção que a minha voz lhe conseguira transmitir. Ainda assim, ele sentiu-a, pegou nela e deu-lhe um cavalheiresco beijo.

– Muito obrigado, Lúcia. És muito simpática.

Guardei a minha mão no bolso, e nunca mais a lavei. Bom, eventualmente lavei. Mas antes, beijei-a repetidamente. E mais não confesso, que os segredos da adolescência são como Las Vegas...

Desde então, tornámo-nos praticamente inseparáveis. Estudávamos sempre juntos: eu dava-lhe explicações de Português e de História, pois ele nunca aprendera história de Portugal nem gramática portuguesa; e eu fingia precisar da sua ajuda a inglês e a francês. A simbiose perfeita!

Nos tempos livres, mostrava-lhe a cidade e os melhores sítios para comer um pastel de nata, dos quais se tornou fã incondicional – “Só por isto já quase valeu a pena vir para Portugal”, dizia, saboreando o creme doce de olhos fechados.

Tal como ele, também eu me sentia nas nuvens, embora a mim fosse o deleite da sua companhia a elevar-me ao sétimo céu, enquanto a ele eram apenas as delícias da pastelaria portuguesa que o faziam levitar. Além dos seus superpoderes, é claro.

Os meus sentimentos iam diariamente tomando proporções que tornavam a minha caixa torácica cada vez mais apertada. Era um facto cujas evidências eu não podia continuar a ignorar: estava apaixonada por ele.

Porém, o Jonathan – ou Jon, como gostava que o chamassem – não aparentava partilhar da mesma sintomatologia. A amizade não se resolvia a evoluir e a leveza dos dias primeiros começou a desintegrar-se. Se no início flutuava alegremente, com o correr inalterado daquele tempo eu mais parecia um anémico gaulês a arrastar um imenso menir. E sem perspectiva alguma de beber um gole que fosse da poção mágica. Esperem. Esta analogia não soou bem. Mais parecia um condenado, a arrastar os grilhões, sem perspectivas de perdão. Não, grilhões ainda soa pior. Mais parecia um barco, com âncora... Que se lixe, já se percebeu a ideia! Voltemos ao que interessa.

O que interessa é que eu tentei, tanto quanto pude, suster a minha ansiedade, mas aos 16 anos isso é tarefa hercúlea. Percebi que a nossa amizade poderia nunca vir a ser outra coisa, e não sabia como dizer-lhe quão insuportável isso era para mim. Estava apaixonada, assolapada e irremediavelmente – sermos os melhores amigos simplesmente não me chegava. Tinha de dizer−lhe tudo isto, mas não encontrava forma.

Achei que devia fazê-lo como se tira um penso rápido: depressa e sem pensar muito. Achei, mas não consegui. Precisei de semanas até ganhar coragem para esboçar um gesto, uma tentativa ténue de o fazer. Exactamente três meses depois de ele entrar na minha vida ao entrar na sala 202, enchi o peito de uma coragem débil e comuniquei-lhe que, no fim das aulas, era preciso termos uma conversa séria. Disse-lho com o ar mais solene e grave que consegui – achei que a ocasião não era para menos.

Na altura, pareceu-me ter encontrado uma boa solução. Em vez de lhe dizer o que precisava aos solavancos engasgados, ganhava tempo para ir pensando no discurso, sem poder fugir com o rabo à inevitável seringa: a inoculação estava irrevogavelmente marcada para o fim da tarde. Além disso, agradava-me a ideia de o deixar a pensar em mim durante todo o dia, numa espécie de tortura romântica!

Pensei que ele iria ficar, no mínimo, apreensivo. Mas, para minha surpresa, a sua reacção foi muito diferente.

– Ainda bem! – respondeu-me, jovialmente, quase interrompendo a minha frase –, eu também preciso de falar contigo! Encontramo-nos nas bancadas do campo de basquete?

Eu não desarmei, arrumei rapidamente a expressão de espanto que se desalinhou na minha cara, e respondi-lhe eloquentemente.

– ‘Tá bem...

Cool! – Deu-me um soco compincha ao de leve no ombro, e entrou despreocupadamente na sala.

O resto da tarde foi uma tortura, tal como eu previra – mas para mim, não para ele.

Por esta altura, ele já estava bem entrosado com todos os colegas da turma, e passou uma tarde descontraída, em animada galhofa com todos nos intervalos, sem qualquer aparente transtorno ou a mais leve apreensão a aflorar-lhe o rosto. As aulas também lhe correram pacificamente. Até fez um brilharete na aula de matemática, ao resolver um problema cuja solução estávamos todos a anos-luz de encontrar. Mas que são anos-luz para o super-homem, não é? Pois, deve ser... Anos-luz, nervos de aço, e o raio de criptonite que o partisse!

Já eu, passei o dia numa sessão contínua de manicure radical, e nem o travo azedo do verniz anti-unhas-roídas me deteve. Só me deixou mais enjoada que um peru de véspera, como dizia a minha avó. Entre o gosto a rabo de gato do verniz e os meus nervos desvairados, era difícil discernir o que me deixava mais à beira do vómito.

O temido crepúsculo acabou por chegar. O som estridente da campainha da escola parecia anunciar mais que o mero fim das aulas – soava a arauto do fim dos meus dias felizes. O meu coração migrou-me do peito para a garganta, onde o seu bater desenfreado quase me sufocava. Como iria eu conseguir articular duas palavras que fossem, era uma perfeita incógnita.

A multidão estudantil saiu das salas e desapareceu em poucos minutos. A escola continuava aberta, pois começaria, dali a menos de uma hora, o horário nocturno para os adultos que terminavam o ensino secundário em regime pós-laboral.

Eu levei uma pequena eternidade a tirar os meus livros do cacifo e a arrumá-los na mochila. O temor daquela iminente conversa aumentara consideravelmente devido às variáveis imprevistas que ele acrescentara. Os pensamentos aceleravam ao ritmo inquieto do meu coração: o que seria que ele me queria dizer? Boa coisa não podia ser. Se fosse algo feliz, ou na pendência da felicidade, ele não teria estado tão descontraído durante todo o dia como estivera. Teria, sim, passado a tarde – COMO EU! – com os nervos a zurzirem-lhe o espírito, porque a sua felicidade imediata – e quiçá eterna! – dependia de uma conversa comigo!

Avancei de pernas bambas, e a passos de caracol cansado, pelos corredores que davam para o pátio exterior, na direcção do campo de basquete. Ele lá estava, à minha espera – alto, impecavelmente rectilíneo, lindo de morrer, com o pôr-do-sol ao fundo a recortar-lhe o perfil heróico! A adolescente em mim ainda hoje suspira à lembrança desta imagem...

Quando me viu, sorriu. Eu não. Não fui capaz – não sentia os músculos da cara, não sei se pelos nervos agudos ou pela toxicidade do verniz, já fatalmente espalhada na minha corrente sanguínea.

Pousei a mochila, sentei-me, e quando tentei começar a falar, ele interrompeu-me.

– Espera, deixa-me falar primeiro. Não te importas?

Abanei a cabeça, quase agradecida. Era melhor assim, podia sempre mudar o meu discurso em função do que ele diria.

– Vamos dar uma volta pela escola? – convidou.

– ‘Tá bem. – a eloquência, pelo menos, não me tinha abandonado.

Caminhámos em silêncio, lado a lado. Observei-o discretamente e percebi que a descontracção que lhe vira durante toda a tarde desaparecera por completo. Parecia agitado, esfregava nervosamente a mão direita na testa, e, de tempos a tempos, balbuciava palavras sem emitir qualquer som, como se estivesse a rever mentalmente a matéria antes de um teste difícil.

Sorri, de alívio. Assim, sim. Aqueles nervos óbvios, eu já entendia. Agora parecíamos estar no caminho certo. E estávamos, de facto. Mas o raio do caminho nunca mais acabava: demos sete – 7! – voltas à escola, (ou possivelmente ao planeta, não sei bem...), até voltarmos ao ponto de partida e ele, finalmente, ganhar coragem para me dizer o que pretendia.

– Lúcia... eu... Eu estive a pensar muito, e... E ... Eu gosto... não. Eu...

– Podes dizer em inglês se te for mais fácil. – tentei ajudar.

Não ajudei. Ele olhou-me ainda mais aflito por perceber que eu percebera a sua já ostensiva aflição. Então, fiquei eu aflita por o ter afligido mais, e potencialmente ter aumentado, de forma aflitivamente exponencial, o tempo que lhe levaria a articular o que queria dizer, fazendo com que, inevitavelmente, eu fosse chegar atrasada a casa, e o meu pai ficaria, por seu turno, aflito com a minha ausência, manifestando a alto e bom som a sua aflição assim que eu chegasse. Não sei se fui suficientemente elucidativa, mas aquela era uma situação aflitiva. A minha adolescência não foi fácil.

Ao cabo de dez minutos de estarmos os dois sentados nas bancadas sem nenhum dizer nada, enchi novamente o peito de coragem e resolvi tomar as rédeas da situação. Levantei-me de repente, cheguei-me a ele, agarrei nas golas do seu casaco e dei-lhe um beijo na boca. Senti a surpresa a tomar forma nos movimentos da cara dele, e pensei que tinha feito merda. Até que os braços dele me rodearam a cintura, e, puxando-me mais para si, começou a beijar-me também.

Estávamos já a encetar a oitava órbita terrestre, quando um som ríspido e desagradável nos fez poisar os pés no chão, de novo.

– Ó meninos! E se fossem fazer poucas vergonhas para outro sítio? Rais’partam a miudagem, ninguém lhes dá educação, é o que é! Andor-violeta daqui pra fora! Ai a minha vida, não me pagam que chegue para aturar esta canalha, é o que é!

A dona Aida foi-se embora a resmungar, e nós, perdidos de riso, saímos a correr da escola. De riso, e de paixão, um pelo outro.

Ele pegou na minha mochila com a mão esquerda, e com a direita pegou na minha mão, entrelaçando os seus dedos nos meus – prova inequívoca de que agora éramos namorados. Caminhámos de novo em silêncio, mas este silêncio passou a conter toda a certeza da felicidade, em vez de todas as dúvidas.

Que saudades da minha difícil vida de adolescente...

 

Lúcia ao contrário - excerto 3 [Reel]

Nota: este excerto faz parte do meu novo romance ainda em produção. Todos os excertos deste romance aqui publicados não estão por ordem nem foram revistos. Se quem lê quiser deixar-me as suas impressões nos comentários, ficarei muito grata. 

 

 

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