Chaminé
- Conta-me o Natal -
Dezembro 22, 2023

Olhei para o relógio – meia-noite menos cinco. Tossi alto para chamar a atenção dos adultos, e fiz-lhes sinal para se porem a postos. A criançada, sentada no chão, como sempre alheia às nossas manigâncias.
Encostei-me disfarçadamente ao umbral e apaguei as luzes todas de uma vez. Ao mesmo tempo que apenas restou o tremelicar colorido do pinheiro a iluminar a sala, um grande estrondo fez-se ouvir. As crianças levantaram-se de um pulo, tão aturdidas quanto excitadas, perguntando umas às outras o que seria aquilo, procurando nos rostos fingidamente chocados dos adultos a resposta para o seu espanto.
Não sei realmente porque se surpreendem tanto: é sempre o mesmo ritual todos os anos, sem tirar nem por. Abençoada infância!
Os miúdos mais velhos, já a raiarem o cínico aurora da adolescência, miraram os mais pequenos com trocista paternalismo, mas apenas para disfarçar as saudades que, na verdade, sentem de serem assim, crentes na magia. Eu bem sei.
O rei da festa anunciou-se com uma gargalhada inconfundível – aprimorada a cada ano, devo reconhecer. Entrou de saco vermelho às costas, a distribuir caramelos pelos miúdos, quase histéricos, aos saltos à sua volta.
Olhei a cena, sorridente. O gáudio de crianças e adultos, nestas ocasiões, é impagável. Os pequenos felizes pelos presentes; os adultos felizes pela alegria gigantesca que gente tão pequena é capaz de sentir.
Deixei-os entregues à cerimónia e fui para a cozinha preparar os últimos confortos da noite: chocolate quente para aconchegar os mais pequenos, digestivos e shots para aconchegar os mais crescidos – as crianças já tinham tido a sua, agora era a vez dos adultos experimentarem um pouco de magia, sob a forma líquida!
O ruído de entusiasmo da sala foi subindo e descendo de tom, à medida que cada novo presente era entregue ao seu destinatário e desembrulhado. A algazarra final indicou−me que os presentes estavam todos distribuídos, e que a bandeja das bebidas podia avançar.
Foi então que senti o Pai Natal a entrar na cozinha – os guizos do gorro, a tilintar ao ritmo dos seus passos, denunciaram-no.
– Então, já estão entregues os presentes todos? – perguntei sem me voltar na sua direcção.
– Não, ainda falta um...
Pôs-me a mão na cintura e beijou-me o pescoço. Pousei as garrafas na bandeja, virei−me e puxei-lhe a barba branca para o queixo. Dei-lhe um beijo e voltei a pôr-lhe a barba no sítio.
– Feliz Natal. – desejei-lhe.
– Mais logo, vai ser...
– 2 horas? Chaminé?
– Às 2. Chaminé.