Memória de Elefante
Julho 20, 2023
In Histórias de Uma Mente Fragmentada

«Eu lembro-me de tudo, sabe? O meu pai sempre dizia que eu tinha memória de elefante. Tão bonito que era, o meu pai… Naquele tempo os homens tinham outro aprumo, sabe? Não é como agora, que andam para aí de guedelhas compridas, roupa rasgada, brincos nas orelhas! Veja lá bem, ontem vi o neto ali da Dona Estefânia – é aquela senhora de roxo acolá, já está um pouco esquecida, pobrezinha – e as figuras em que o moço vinha! Olhe, nem sei como descrever: cabelo todo rapado só de um lado, barba por fazer, e – imagine! – calças a cair pelo rabo, com as cuecas a verem-se! Isto são maneiras de um jovem se apresentar à sua avó? Credo-santo-nome!
Mas naqueles tempos os homens tinham brio na sua figura, e o meu pai, não desfazendo, era um homem que sabia apresentar-se: bigodes aprumados, cabelo bem encerado (era o que se usava, sabe? Não havia cá destes produtos modernos de agora), camisa bem engomada – de resto, nem a minha mãe consentia que ele saísse de casa sem a camisa estar impecável -, e o fato, apesar de já estar um poucochinho puído, estava sempre limpo e bem escovado! Ser pobre não é desculpa para se andar por aí mal-enjorcado! Não, o meu pai era um homem bem-apessoado, dava gosto vê-lo descer a rua! Na altura, vivíamos ali na rua defronte ao mercado, antes de o mudarem lá para cima, perto da igreja do sagrado-coração, conhece? Aquela pequenina, perto do colégio das freiras? A minha avó é que gostava muito de lá ir, à missa das cinco, e levava-me sempre com ela. O senhor padre cura dessa época veio a ser a ordenado para bispo, e dizia-se que ia chegar a cardeal! Mas o coitado deu-lhe um achaque no fígado e finou-se antes disso! Ainda fiz a primeira comunhão com ele, e a minha irmã Gracinda fez a solene. Era muito bom prior, dava bons conselhos, lindos sermões nas missas, muito bom prior. Mas tinha aquela fraqueza, sabe, gostava o seu bocadito da pinga, e pronto. A minha irmã Rosa – a mais velha - era para ser casada por ele, mas o coitado não esteve bem no dia do casamento, e teve de vir um fradeco à pressa lá do seminário para realizar a cerimónia. A gente até brincava com ela e dizer que o casamento não tinha valido! E olhe que não estou certa se valeu, pois que há-de saber um seminarista? Eles disseram que ele já era ordenado, mas a gente sabe lá! O meu pai ralhava com a gente por a arreliarmos, quer dizer, com os meus irmãos mais velhos, que eu era uma cachopa, nem percebia muito bem qual era a piada!
Mas ela foi muito infeliz, a pobre Rosa. O mafarrico do marido – deus-lhe-dê-descanso – era muito mau para ela. Chegava a casa bêbedo todas as noites, batia nela e nos piquenos, era muito triste. Mas cada qual é para o que nasce, e a minha irmã Rosa carregou a cruz dela até à morte do marido. Nem depois de velho, já cego de um olho e meio manco de uma perna, ele lhe dava descanso, coitadinha. Nem os filhos já crescidos lhe valiam. Quando o estafermo se finou – deus-me-perdoe – ela ainda viveu mais três anos, de luto carregado, como se ele tivesse sido um bom marido pelo qual fazer luto! Eu dizia-lhe “deixa lá isso, mulher, vai aproveitar os anos que te restam, agora que o demónio se foi!”, mas ela encolhia os ombros, coitadinha. Nem que quisesse, já não sabia viver. Levou a vida sempre à beira de morrer e agora que podia mesmo viver, não sabia como, parecia que tinha a morte entranhada. Chegue-me aí um lencinho de papel dessa caixinha, minha querida, que isto, quando me lembro dela, acabo sempre de olhos molhados!
Já eu, não quis a mesma sorte! Eles bem me rondavam a porta, mas eu queria cá saber de casório e de aturar marido! Eu não! Assim que pude, fiz a mala e ala que se faz tarde! Fui para França trabalhar! Fiz de um tudo: servi às mesas, limpei quartos de hotel, servi em casas de senhoras finas, fui cozinheira de uma república de estudantes, eu sei lá que mais.
Tive muitos pretendentes, e até namorei alguns, não digo que não, mas nunca me deixei prender! Os franciús, naquela altura, o que queriam era uma portô para dar uma voltinha, mas casar, só mesmo com as francesas como eles! Mas a mim – olhe! - caíam-me aos pés, que mais parecia que eu tinha mel! Veja lá que até houve um que me comprou um anel de granadas e diamantes e tudo, mas eu recusei-o, a esse e a todos. Com ou sem anéis, a mim não me apanhavam os franciús! Eu era portô e com muito orgulho, que nunca me esqueci da minha origem!
Eles ficavam malucos quando eu cantava os fados da Amália – modéstia à parte, eu era bem afinada e tinha jeito, havia até quem dissesse que eu era parecida com ela! Diziam-me “Mademoiselle, je ne comprends pas un mot, mais votre voix m'enchante”!
Mas eu fartei-me daquilo, tinha saudades de casa, e daqui da terra, sabe? Da família, da comida – que eles lá têm muita fama de comer bem, mas olhe que eu nunca passei tanta fome na vida, pior só mesmo no tempo do Salazar!
E se a gente passou fome, por causa dele! Sabe o que ele dizia ao povo? “Da guerra livro-vos, mas da fome...” – o grande patife! Nem da guerra nos livrou sequer, porque à conta da Pide, isto era uma vida de batalha todos os dias! Houve um vizinho meu que se desentendeu com outro por causa de um limoeiro que havia no meio dos dois quintais, e olhe!, passados uns poucos de dias desapareceu, e nunca mais ninguém o viu! Diz-se que o outro tinha amigos na Pide, e lá arranjou maneira de se livrar do vizinho! Já viu? Por causa de uns limões!
Que julga? Eram tempos muito maus, ninguém sabia em que se podia confiar! Não se falava de política, não se comentava nada com ninguém do que não fosse da nossa conta. O meu pai dizia-nos sempre: “moita carrasco!”, e a gente sabia logo que era para termos cuidado com a língua!
Por isso que levávamos a vida a trabalhar e a cantarolar, para não nos lembrarmos que era uma vida dura! E eu que comecei bem nova! Tinha menos de seis anitos e já fazia a sopa para a família toda, depois de levar as cabras ao monte! Eu levava-as para cima de manhã, deixava-as a pastar, com o canito a olhar por elas, e o meu pai e os meus irmãos traziam-nas para baixo à hora do almoço, quando vinham da leira. A minha mãe vinha com as minhas irmãs, de lavar a roupa ou de levar o rol da roupa passada às freguesas. Quando nos juntávamos ao almoço, a comer a minha sopinha, era uma alegria. A alegria dos pobres, mas era, assim mesmo, alegria...
Depois quando o meu pai se finou, a minha mãe teve de me tirar da escola e pôr-me a ajudar mais. Pelas festas do Sr. Dos Passos, ela fazia rebuçados e cavacas doces, para vender na feira. E eu ficava danada, porque ela nunca me levava, deixava-me sempre em casa, a tratar da lida, ou a das cabras e dos porcos, enfim!
Por isso, assim que tive idade, pus-me ao fresco, e tratei de ir fazer a minha vida por minha conta! E lá fui para França! Estive lá uns poucos de meses, mas aquilo não era para mim. Quase estive para casar com um francês, - deu-me um anel e tudo! - mas tive saudades de casa, e voltei.
Estava de regresso há umas boas semanas, e já a trabalhar no sindicato dos jornalistas, quando me apresentaram um magala – recém-chegado de Angola, veja bem! – e pronto! Embeicei-me por ele, e ele por mim, e lá acabei por me casar!
Eu acho que foi por culpa da farda! Sempre gostei de ver um homem bem aprumado! E o meu falecido Alfredo ficava bem parecido de farda, lá isso ficava!
Mas nada que se compare com o meu pai – deus-o-guarde-em-eterno-descanso! O meu pai era um cavalheiro à moda antiga, sabe? De cabelo e bigodes bem encerados, de fato, já velhinho e coçado – era o único fato que ele tinha, e tinha de dar para tudo! -, mas sempre muito esmerado! Para ir para a leira, não lhe fazia falta o fato, mas quando ia à vila, o meu pai fazia questão de o vestir! Já lhe falei do meu pai?
- Já, mãezinha. Já me contou.
- Ó filha! Estavas aí? Não te vi, estive para aqui entretida a falar com aquela moça simpática, já não sei dela... Chegaste há muito?
- Não, mãezinha. Cheguei agora mesmo.» - menti.