Rosa sem perfume
Memória
Julho 05, 2024
Era uma vez uma mulher que não sabia amar. Chamava‑se Rosa.
Rosa não sabia muito bem quando começou a não o saber fazer, nem quando se deu conta de que o não sabia. Parecia-lhe ter existido uma altura em que o soubera – mas não estava completamente segura disso.
Desde que se lembrava de ter começado a sentir, que nunca foi capaz de sentir nada. Pelo menos, que se lembrasse. Lembrava‑se, isso sim, de observar e aprender.
Bom, nada, nada, não. Ela não era totalmente insensível. Sentia tudo o resto, tanto quanto qualquer outro mortal, tanto quanto humanamente possível – alegria, dor, nervos, paz – mas nunca amor.
Conseguia sentir muitas coisas diferentes, uma panóplia variada de emoções, comuns em quase todos os seres humanos. Até algumas menos comuns – como verdadeira empatia pelo sofrimento alheio, algo que tanta gente neste mundo é absolutamente incapaz de sentir.
Sentia apreço pelas pessoas da sua família, mas sentia‑o porque as conhecia desde sempre, desde que nascera o seu corpo, desde que pulsara o seu coração, desde que começara a sua memória. Mas não sentia a sua falta, se estavam longe, nem particular alegria quando regressavam.
Sentia que os familiares faziam parte de si, tanto como o seu cabelo – mas não tinha pena por não as ver, tal como não tinha pena do seu cabelo cortado no chão do cabeleireiro. Sabia que regressariam a casa, tal como sabia que o cabelo voltaria a crescer. Sabia que regressariam a ela, porque dela faziam parte intrínseca.
Não, empedernida não era. Ela sentia muitas coisas. Só não sabia sentir amor.
Mas no amor cabem muitos outros sentimentos, muitas outras emoções: a saudade, a mágoa, a paixão. E destes irrompem os gestos que os definem, os carinhos, os afectos, os abraços, os beijos, as palavras ternas. Rosa não os tinha, porque não sabia expressar o que não podia sentir.
Contudo, com o tempo, por observação atenta aos que a rodeavam, aprendeu a imitar, aprendeu a manifestar afecto. Não para seu benefício – Rosa não sentia falta de receber o que não tinha no seu coração para dar –, mas por causa da sua mãe.
A sua mãe, mulher atenta a tudo até ao mais ínfimo detalhe, foi a única da família que se apercebeu, era Rosa ainda criança pequena, que algo não estava bem com ela. A menina não procurava o seu colo, nem o conforto do seu abraço, nem tão‑pouco devolvia os afectos que tão carinhosamente lhe eram dispensados.
«Deixa estar a moça piquena, tempo não lhe faltará, Deus querendo, para andar por aí a querer dar beijos e abraços!» – dizia o avô, um pouco por pirraça, mas também pelo tanto que a sua experiência de pai de cinco filhas lhe trouxera à sua longeva sabedoria. Querendo Deus ou não...
Contudo, Rosa, nunca se enamorou.
Fazia jus ao seu nome: era bela, airosa e perfumada, cobiçada por inúmeros pretendentes desde que brotou em flor. Mas nunca nenhum se destacou para ela, nunca teve vontade de abraçar e beijar ninguém, nunca sentiu o arrepio na espinha só de ouvir a voz da pessoa amada, nunca a felicidade borboletou, doida e apaixonada, no seu estômago.
Após as insistências goradas de tantos rapazes frustrados, Rosa ganhou reputação de difícil e de amarga – a rejeição feminina resulta frequentemente em alcunhas deste género, senão piores, devido ao orgulho ferido de alguns machos...
Sempre que algum rapaz, novo no meio, tentava a sua sorte junto dela, recebia logo o aviso dos restantes rejeitados: nem te dês ao trabalho, que essa Rosa não tem perfume!
Mas, ao contrário dos rapazes da vila, a mãe nunca desistia. «Estás a fazer caixinha ou não tens mesmo namorado?», – questionava‑a, apreensiva. – «Se for namora‑da, não faz mal, sabes? Ninguém nesta família te vai julgar, só queremos saber‑te feliz...» – insistia.
«Não há ninguém que me interesse de momento, Mãe.» – rematava Rosa. Às vezes, para suavizar as rugas vincadas que a mãe trazia sempre entre as sobrancelhas, mentia‑lhe piedosamente: «terminei um namoro há pouco, por agora quero ficar sozinha uns tempos...».
Mas Rosa sabia que desculpas destas têm duração tão curta quanto as pernas com que correm para longe da honestidade, e que, mais cedo ou mais tarde, a mãe voltaria com mais perguntas. Sabia que um dia teria de a encarar e de lhe dizer a verdade.
E um dia fê‑lo. Encheu‑se de coragem, e disse‑lhe o que carregara no seu peito frio, em estanque silêncio, toda a sua vida.
– Sabes, Mãe, o amor não é para mim. Não o consigo sentir nem tenho pena por isso. Em nada me faz falta.
– Mas... não sentes... nada?
– Não. Sinto muita coisa, mas amor, não.
– Nem por mim, nem pelo pai? Nem pelo avô Augusto, que‑Deus‑tem? Nada?!
– Nada.
– Por isso não choraste, quando o avô partiu... Não sentes a sua falta? Não irás sentir a minha, quando eu me finar?!
Rosa inspirou fundo, e deixou o ar sair dos pulmões devagarinho, antes de o tornar a deixar entrar. Media cada palavra cuidadosamente, porque sabia, empiricamente, que as pessoas que amam, muitas vezes, se magoam com elas.
– Não, Mãe. Não sinto nem vou sentir. Porque vocês estão todos em mim, desde sempre, desde que me conheço como pessoa, desde que sei quem sou. Quando tu morreres, não te irás embora de vez, porque fazes parte do que eu sou. Só tenho de pensar em ti, para estar contigo, estejamos as duas perto ou longe uma da outra.
– Se não és capaz de amar, como terás alguém na tua vida, com quem partilhar os anos de solidão na velhice, as alegrias na juventude... e os filhos? Nunca quererás tê‑los, porque nunca os vais amar? E assim... estarás sempre sozinha, neste mundo, quando nós todos tivermos partido!
– Talvez. Mas quem disse que a felicidade é feita só disso? Quem disse que não se pode ser feliz sozinho? Além do Tom Jobim...
Foi a vez da mãe respirar fundo, neste diálogo difícil e doloroso. O futuro da sua filha afigurava‑se‑lhe demasiado triste para o seu coração de mãe suportar.
Os anos perfilaram‑se sem grandes distúrbios nem aflições. Rosa fez‑se mulher, e passou a viver os seus dias sozinha, quando a sua família, um após os outro, deixaram de fazer parte deste plano material.
Vivia sem pena, sem mágoa, sem saudade. Na sua mente e no seu coração, estavam lá todos, como sempre os conhecera.
Um dia – porque há sempre um dia – encontrou um homem, diferente dos muitos que conhecera até então, dos muitos a quem amara só na cama, sem outro ardor que o da pele.
Mas Rosa sabia que, por muito distinto, havia uma coisa que não seria diferente nele – e decepou‑lhe de um só golpe todas as irrealistas expectativas que ele pudesse acalentar a seu respeito, como se cortasse um toro de lenha em dois. Fazia‑o resoluta, porque era melhor cortar‑lhe as esperanças mais cedo, do que partir‑lhe o coração mais tarde.
– Sabes como me chamam? “Rosa sem perfume”! E têm razão. Por isso, mais vale que te afastes de mim agora, enquanto me queres bem, para não me odiares mais tarde.
Mas ele não se foi embora. Visitou‑a diariamente, durante meses a fio, sem se desanimar. O amor que sentia por ela apenas lhe dera uma certeza: que se não a pudesse amar, nunca mais amaria ninguém. Ela riu‑se dele, troçou do disparate, mas deixou‑o estar.
Quando se deu conta, ele já fazia parte da sua rotina, ele estava presente nas horas vagas e soltas que os dias deixam cair, por vezes. Ele existia no seu caminho, como o vento ou a chuva, ou o calor do sol no Verão.
Quando se deu conta, o perfume dele estava colado na sua pele. As suas palavras ternas, moravam na sua memória. Os seus gestos afectuosos, pertenciam ao seu coração. E ele já fazia parte dela.
Ainda assim, ela inquietava‑se. Por ele.
– Porque queres tu ficar com alguém que nunca te há‑de amar?
– Quem disse que tu não me amas?
Rosa riu.
– Ai tu achas que isto é amor?!
– Não acho, sei. Tu amas‑me, sim. Como amaste a tua mãe, o teu pai, o teu avô. O amor tem muitas formas, muitas cores, muitos nomes. O amor sabe mais sobre nós e do que somos capazes do que nós próprios.
– Eu não sei amar. Não o sinto em mim. Mas tu sabes, tu consegues! Como podes tu querer viver a tua vida com uma... rosa sem perfume?!
Valentim sorriu.
– Aceito o teu amor tal como ele é. E quanto ao perfume... digamos que já sei o que te oferecer nos teus anos...
Era uma vez uma mulher que foi amada. Chamava‑se Rosa.
